Espaço destinado ao registro das percepções críticas de um cidadão brasileiro sobre política, comunicação, comportamento e demais assuntos pertinentes à sociedade contemporânea.
Uma visão técnica do ponto de vista do marketing e apaixonada do ponto de vista humano. Leia, critique e replique à vontade!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

(In)Segurança.

Dentre todas as obrigações de um governo, penso que prover segurança aos seus governados deva ser prioridade. O artigo 144 de nossa Constituição Federal é imperativo ao dizer que a segurança pública é dever do Estado, afirma até ser um direito e responsabilidade de todos. Mas a palavra “direito”, a meu ver, não tem correspondido ao que temos visto no dia-a-dia em nossas cidades.
Não há um único dia em que deixemos de ser impactados por notícias de crimes e violência contra o cidadão. Por mais que haja propagandas laureando ações dos governos - afirmando o progresso no atendimento às demandas populares - no mundo real, aquele que não se restringe às mídias utilizadas para convencer o eleitor de que tudo está lindo, vemos estampado na face de toda sociedade o medo. O medo dos pobres, que convivem com a criminalidade em suas portas, o medo da classe média, que vê lhe ser tirado tudo o que passou décadas aspirando possuir, o medo dos ricos, que passaram a viver entrincheirados em condomínios de luxo com altos muros e vigias armados, em situação análoga aos presidiários em seus cárceres.
Somos todos vítimas da omissão e incompetência gestora do Estado. O próprio Estado é vítima de si mesmo, pois a violência impacta em todas as áreas sociais e econômicas. Não é difícil ver empresários desistindo de seus comércios por não suportarem mais serem assaltados, por ter seus funcionários apavorados pedindo demissão e lhes gerando despesas com novas contratações e treinamentos. Vemos uma percentual de clientes que já não levam seu dinheiro aos bares e restaurantes das cidades, por medo de arrastões e furtos. É impossível trabalhar, produzir, estudar e se divertir na integralidade quando estamos com medo, apavorados com a possibilidade de sermos roubados ou mortos.
O povo sofre com a violência nas ruas, nos ônibus e terminais, no trânsito, em suas casas, até nos shoppings que possuem seus esquemas próprios de segurança. Afirmo que essa violência exacerbada não pode ser creditada à falta de atuação das forças policiais. Temos uma polícia atuante, que prende, mas que não possui amparo na legislação, que solta. Temos uma polícia que atua diuturnamente, ainda que em condições muito piores que as dos marginais que enfrentam nas ruas, bandidos melhores armados e equipados.
Vivemos o caos na segurança pública! Nossas leis, descontextualizadas, inverteram direitos e deveres, e colocaram o povo atrás das grades e os marginais nas ruas. Nosso sistema penal é dominado de dentro para fora. As cadeias servem como universidades do crime, e só não estouram porque os bandidos entenderam que vale a pena viver amparados pelo Estado. Sabemos que dentro dos presídios não há, em sua maioria, privação de drogas, celulares, prostituição, chegando ao ponto de haver “centros de lazer”, com confraternizações que são expostas via redes sociais.
É fato que estamos com medo, e o medo é um dos sentimentos mais fortes dentre as motivações humanas. O medo pode nos paralisar, mas também pode provocar reações violentas em defesa da sobrevivência.
Estamos nos aproximando do momento onde a sociedade amedrontada tenderá a duas ações: entregar suas vidas nas mãos de um “salvador da pátria” que lhes faça justiça, e isso é o abre-alas para um novo ditador, ou colocará ela mesma as mãos em armas para se defender, o que independe de estatuto do desarmamento, pois será este o nível da descrença geral no Estado.
Marcos Marinho

Professor e Consultor político.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Estamos no caminho certo.

Todos nós acompanhamos recorrentes manchetes jornalísticas dando ciência à população de crimes cometidos por elementos públicos, políticos, com mandato ou sem, que utilizaram de seus cargos e poder para corromper, usurpar, dilapidar e formar quadrilhas que lhes permitissem dar vazão à sua sanha por dinheiro e poder.

Ultimamente tornou-se corriqueiro vermos prefeitos, vereadores, deputados, governadores, secretários de várias pastas e até presidentes tendo que dar esclarecimentos à justiça, sendo presos ou conduzidos coercitivamente para prestar depoimento sobre acusações promovidas pelas polícias e Ministério Público.
E aqui preciso chamar sua atenção, leitor. Quando disse no parágrafo acima “ultimamente”, é porque efetivamente os escândalos envolvendo elementos do cenário político passaram a ser amplamente noticiados recentemente. Isso não quer dizer que não existissem antes e, sim que, possivelmente nós, cidadãos, é que nunca fomos informados.

Tenho procurado questionar se estamos realmente descendo ladeira abaixo no âmbito da política nacional, ou se apenas estamos tendo condições de tomar conhecimento de uma realidade que já acontecia nos bastidores do poder há muito tempo.

Com a evolução tecnológica dos meios de comunicação, a dinamicidade do trânsito de informações e o acesso à produção livre de conteúdos informativos, os espaços obscuros da sociedade onde as tramoias e patifarias aconteciam desde que o homem juntou-se em sociedade está diminuindo. Hoje existem milhões de olhos e ouvidos dispostos a flagrar os “mal feitos” dos homens públicos e denunciá-los ao mundo. Antigamente não havia muitas formas de fazê-lo - de expor os podres do poder, por ser o próprio poder o principal mediador da comunicação.

Não sou utópico a ponto de crer que já não existam os bunkers de segredos sórdidos das altas cúpulas do poder político. Mas acredito que a luz há de se espalhar cada vez mais sobre os assuntos que impactam na vida do povo, simplesmente porque parte do povo passou a fiscalizar e vigiar aqueles que deveriam representá-lo com lisura.

Outra ressalva que faço sobre a melhora do cenário político deste país é a atuação forte e assertiva do Ministério Público, respaldada pelas marchas do mês de junho que disseram não à PEC37. Com autonomia e fortalecido pelo aval da sociedade, o MP tem investigado e exposto à sociedade o soturno mundo do poder político.

Toda essa sequência de escândalos também serviu para deixar claro que não existem siglas partidárias que representem a “liga da justiça” ou a “legião do mal”, fazendo uma analogia aos antigos desenhos animados, pois ficou claro que existem corruptos infiltrados, se não em todas, na maioria das legendas políticas. O que nos obriga a conhecer, pesquisar e investigar ainda mais o histórico daqueles que nos pedem o voto.

É fato que o desânimo tem se abatido sobre a sociedade que, de tão enojada pelos acontecimentos midiatizados, passa a renegar o processo político. Todavia, é importante refletirmos sobre um paradigma simples: O que os olhos não veem o coração, de fato, não sente?

A política é uma ciência que prima pelo bem estar da coletividade, a final sua essência é a equalização das diferenças em prol da manutenção da sociedade. Sendo assim, penso que devemos punir os culpados e estimular os inocentes. Estimular que homens e mulheres de bem assumam mandatos, votá-los e não afastá-los da responsabilidade de nos representar, por medo de que se contaminem. A doença não é a política, mas a ganância que está impregnada no homem que não entende ser ele também vítima, por viver nesta sociedade que espolia, do mal que promove ao seu próximo.
Marcos Marinho

Professor e Consultor político.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Pragmáticos ou programáticos, queremos resultados!

 
Está dada a largada para o pleito de 2014. Após o encerramento do prazo para filiações e transferências de partidos, quem tem interesses no próximo certame já se acomodou em algum barco embandeirado pela sigla que melhor lhe atende e, começou sua jornada.

Por certo que a legislação eleitoral apenas permite a campanha durante os três meses antecessores ao dia da votação, mas sabemos que muito há que se organizar, combinar, planejar e viabilizar até chegar o momento de “pôr o bloco na rua” e partir para a batalha pelo voto.

Outra situação determinada pelo avançar do calendário é a imutabilidade do processo eleitoral de 2014, aquele que deveria sofrer modificações apoiadas por uma reforma política consolidada por um plebiscito proposto pela presidente, mas que não saiu do papel, e se configurou em nada mais que bravata para acalmar certo furor que emanava das ruas no mês de junho de 2013.

Em meio ao rebuliço causado pelas idas e vindas de parlamentares que buscavam se escudar no partido que lhes assegurasse mais vantagens, muito se questionou sobre as motivações de algumas alianças. Penso que questionar afinidades ideológicas e programáticas em um sistema com 32 partidos políticos constituídos, que não passam, em sua essência, de mais do mesmo - e onde quase todos os seus agremiados já rezaram outras cartilhas - é demagogia.

Não sou a favor da desqualificação ideológica da política, tampouco defendo o jogo de poder que sobrepujou as causas sociais, mas também não tolero esse falso moralismo propalado por pseudos defensores da essência política. Os mesmos que fazem acordos por baixo dos panos, cooptam seus opositores com dinheiro e benesses, apertam mãos outrora amaldiçoadas em troca de exposição televisiva, e ainda posam de vestais frente aos humildes e carentes de politização.

Não sei se os fins justificarão os meios, mas acredito que só teremos um país digno e com uma política efetiva, no tocante a equalizar as diferenças e produzir satisfação coletiva, com representantes à altura de nossas demandas e sonhos, quando irrompermos essa cortina de fumaça posta pelos senhores feudais do executivo e legislativo, que dominam as casas do povo por décadas a fio.

Devemos promover uma revolução de caras, pensamentos e atitudes. Precisamos quebrar o círculo vicioso do poder, que nos subjuga e oprime, dando início ao círculo virtuoso que trará o povo para o debate politizado, produtivo e verdadeiramente ideológico.

Pragmáticos ou programáticos, o que a população precisa é de atenção, proteção e respeito, não só discurso.
Marcos Marinho

Professor e Consultor Político.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O gigante não voltou a dormir, perdeu-se.

A expectativa é um dos sentimentos humanos mais difíceis de lidar, pois depois de alcançado um referencial, nada abaixo dele será considerado satisfatório e, desta forma, sempre estaremos em busca de sensações que superem as experiências anteriores.

O dia 07 de setembro de 2013 passou carregado de expectativas, em sua maioria, frustradas. Precedido por momentos históricos, onde todas as vozes foram manifestadas nos milhares de cartazes pelas ruas do país em junho, o dia da Independência não ouviu os gritos que esperava.

Já surgiram aqueles que decretaram o retorno do “gigante” ao seu berço esplêndido, e assim apregoam o descrédito no povo brasileiro que não lhes correspondeu às expectativas por não tomarem novamente as ruas com toda fúria e entusiasmo, não superando as imagens veiculadas há três meses pela mídia internacional.

Abstraindo as expectativas românticas e pouco lógicas, avalio que o “gigante” não voltou a dormir, mas está completamente perdido. Aparentemente não ficou claro para aqueles que exigem uma postura mais ativa e engajada do povo brasileiro, que este não assistiu às aulas politizadas das academias ou às reuniões ideológicas dos partidos e movimentos sociais. Sua motivação ainda é difusa, mas suas carências são claras.

As manifestações de junho contaram com anos de acúmulo de frustrações e angústias, associadas a um catalizador econômico que atuou como imã atraindo as pessoas para as ruas. Movimentos desordenados, desorganizados e acéfalos, mas com pelo menos um ponto em comum que os mantiveram unidos nas ruas: a necessidade de extravasar e aliviar a pressão. Todos foram contemplados por esta demanda.

De junho a setembro, os brasileiros foram bombardeados com mais uma série de decepções e escândalos, com corporativismos políticos que beneficiaram bandidos, e com o costumeiro paralisar das ações em benefício do povo. Porém uma coisa não aconteceu neste ínterim: nem políticos, nem líderes, nem entidades surgiram para assumir o papel de novos catalizadores dos motivos populares.

A acefalia de junho pôde ser compensada por fatores que suplantaram a importância de um guia comum, os próprios sentimentos e carências fizeram este papel. No entanto, estes motivadores jamais seriam suficientes para repetir as cenas daquela jornada. Como falamos no início deste texto, as expectativas só se superam por sentimentos mais fortes e impactantes que os anteriores.

Sem direcionamento, liderança e educação disseminados entre todas as fileiras dispostas a mudar este país, ainda que ele não adormeça, ficará sem rumo, perdido em meio a um campo que nunca lhe foi apresentado da maneira devida. O povo mantem os mesmos anseios e carências de antes, mas não sabe se o caminho das ruas é suficiente para saná-los.

Marcos Marinho

Professor e consultor político.

domingo, 8 de setembro de 2013

Friboi, de piranha.

A administração pública carece de gestores mais competentes. A função executiva deve ser exercida com mais critério, pois tem como principal atribuição gerir os recursos de seu município, estado ou país em prol de atender às demandas populares. Acredito que a experiência adquirida por um empresário, que consegue obter sucesso a despeito de todas as dificuldades impostas pelo nosso sistema político e econômico, teria muito a contribuir.

Porém a política possui uma dinâmica que a diferencia muito do meio empresarial. Nesta seara não basta a verve gestora, é preciso habilidades e estratégias capazes de viabilizar os projetos que, invariavelmente, dependem da adesão e/ou concessão de muitos outros personagens.

O PMDB goiano está sendo palco de uma cizânia causada pela oposição de dois personagens: um representando a habilidade gestora, comprovada por uma história de sucesso empresarial, e outro a habilidade política, comprovada por uma história construída com vitórias e derrotas nas urnas e, principalmente, muitas horas de articulação e debate político.

Adotando estratégias condizentes com seus perfis, Iris Rezende e Júnior Friboi protagonizam um dos maiores embates pré-eleitorais da política goiana. Representando, ambos, parcelas importantes do partido, utilizam de expedientes que não são tão facilmente compreendidos pela população que os assiste.

Friboi, com sua ousadia e agressividade, tão pertinentes ao mundo dos negócios, trabalha às claras pela viabilização de seu nome para ostentar a bandeira do partido em 2014. Calçado por atuações de bastidores, que vem de muito tempo e investimento em campanhas alheias, o empresário tenta ampliar seu número de apoiadores internos, cacifando-o com o capital político que lhe é caro.

Iris Rezende, por sua vez, mantem-se no “jogo do quieto”, se negando a uma antecipação de candidatura. O experiente político se permite jogar com o tempo e as expectativas dos outros interessados no processo. Detentor do maior montante de capital político, e uma história que se confunde com a própria história do partido e da política goiana, não sucumbe às investidas do desembestado aliado/oponente, e tampouco às pressões da mídia e dos outros possíveis concorrentes ao páreo do próximo ano.

Vítima de suas escolhas e ciente da necessidade de maximizar sua imagem política antes mesmo do próximo pleito, Júnior caminha por uma estrada ainda não pavimentada em direção às urnas. Além de tocar seu berrante para arrebanhar partidários dispostos a formar sua tropa, necessita ainda da benção do líder-mor do partido e, coisa que percebo estar esquecida, da criação e consolidação de uma imagem política na mente dos goianos, a fim de que estes o percebam como o líder certo para o momento vindouro.

Senhor de suas escolhas, e das escolhas de muitos companheiros posicionados sob suas asas, Iris Rezende joga primorosamente seu xadrez político. Sem movimentos abruptos que o coloquem em desvantagem contra inimigos declarados e disfarçados, continua se esquivando das reivindicações de respostas, bem como da exposição antecipada de suas pretensões que, certamente, ficariam na mira daqueles que não o querem nos palanques de 2014.

O certo é que o cenário político goiano continuará, ainda por um bom tempo, sem definições. Aqueles que contam com o tempo ao seu favor farão uso dele, já os que correm contra ele, deverão ser cada vez mais incisivos em suas investidas. Chamo atenção para um fato que outrora já serviu de fala para o personagem Capitão Nascimento, representado pelo grande ator Wagner Moura: “o sistema entrega a mão para salvar o braço”.


Marcos Marinho

Professor e consultor político.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Moço, esse candidato é Friboi?

Entre as noticias do meio político, veiculadas pela mídia e redes sociais, frequentemente está o nome José Batista Júnior. Figurando como um dos declarados pré-candidatos ao Palácio das Esmeraldas, em 2014, Júnior do Friboi é o único que ainda não possui validação nas urnas de sua imagem política. Fato este que o transforma em uma incógnita política.

Independente dos milhões investidos em diversas campanhas por todo estado de Goiás, em apoio a vários políticos em pleitos anteriores, seu nome ainda não passou por este crivo, não foi aprovado ou rejeitado pelo voto popular, não lhe permitindo contar apenas com transferências de votos de seus apoiados eleitos.

Sendo JB Friboi um dos mais ávidos pré-candidatos ao governo goiano, seu comportamento vira-e-mexe é notícia nos meios de comunicação. Sobre este comportamento vemos e ouvimos, quase em uníssono, dizeres explicitando suas tentativas de conquistar apoio da maioria do PMDB, bem como uma declaração de desistência de Iris Rezende e, enfim, sua benção.

Mesmo concordando que sua candidatura não se sustenta sem o engajamento do líder maior do partido, Iris, acredito que manter tanta energia apenas canalizada na obtenção de declarações partidárias de apoio pode não ser o suficiente para a conquista do objetivo PMDBista, que é assentar um dos seus na cadeira mais importante do estado.

Uma pergunta que se faz necessária é: o povo goiano reconhece Júnior Friboi como líder político? Mesmo com muito trabalho para criar uma imagem de homem público engajado nas questões políticas, a distância entre o Júnior político e o Júnior empresário, na mente do goiano, é grande. Observando tanto esforço no âmbito partidário, questiono se seus estrategistas também estão distribuindo ações a fim de contemplar uma aproximação com o eleitor.

Enfrentando resistências dentro do partido que escolheu para viabilizar sua candidatura, Júnior se esquece de que sem densidade eleitoral não há vitória nas urnas, mesmo com toda trindade do partido rezando sua cartilha. Sem ter participado de eleições anteriores, o único caminho para o empresário-político é buscar aproximação com povo e conquistar-lhe o coração. Se o povo não enxergar em Júnior Friboi o líder que o guiará para longe dos problemas de segurança, saúde, educação e infraestrutura que o consome, não serão pelo mugir de seu berrante ou pela transferência de apoio de outros políticos que sua vitória será construída.

É fundamental que o pré-candidato José Batista Júnior reduza os comportamentos e atitudes de empresário, abandonando a imposição - mais aceitável no ambiente corporativo - passando a compreender a velocidade e articulação próprias do ambiente político.
É hora de fazer surgir a imagem do político Júnior Friboi, aproximando-a do povo que anseia por um novo líder, a fim de ter seu nome aclamado acima de qualquer estratagema partidário, pois nenhum partido ou político pode ignorar o clamor popular a caminho das urnas.

Marcos Marinho
Professor e consultor político

Twitter: @mmarinhomkt

domingo, 18 de agosto de 2013

Quem representa os “coxinhas”? – Política e a nova classe média.



Definitivamente a política brasileira não está preparada para o fenômeno de expansão da nova classe média brasileira. Aferida pela Fundação Getúlio Vargas, a sociedade brasileira já em 2008 passou a ser composta por 53,8% de pessoas acima da linha da pobreza, com bom poder de consumo e difusas aspirações individuais e coletivas. Este fato impacta fortemente as relações políticas do país.
Ainda mal interpretada pela classe política, e pelos próprios governos, esta classe média encontra-se desassistida e sem representação nas câmaras e assembleias. Não contemplada por planos e projetos, nem veiculada em propagandas partidárias e governamentais, a nova classe média segue experimentando a “dor e a delícia” de depender unicamente de seus proventos e limites de crédito, e arcar com os custos elevados dos serviços básicos e impostos.
Não sendo merecedora de bolsas e assistencialismos, a nova classe média passa por um processo de choque de realidade. Elevada ao céu do consumo financiado, incorpora em sua despesa mensal, além das novas aquisições tecnológicas, planos de saúde, escolas particulares, altas alíquotas de impostos, seguros, veículos e combustível. Passa a sentir na pele a ausência de políticas que beneficiem e fomente o empreendedorismo, a redução da carga tributária, a expansão e melhora de qualidade nos serviços públicos. Desta forma a nova classe média, assim como a classe média tradicional, confronta-se com a duplicidade de pagamentos de serviços que legalmente deveriam ser ofertados pelo governo.
Na esteira das aspirações de consumo da nova classe média, obviamente estão as novas preocupações sociais e políticas deste grupo, agora menos suscetível ao tipo de promessas e campanhas tradicionalmente feitas durante os pleitos majoritários e proporcionais.
Trago o questionamento sobre como os partidos e políticos estão se preparando para interagir com esta maioria de eleitores em processo de transformação. Transformação em suas aspirações pessoais, profissionais e sociais, todas permeadas pelas relações e decisões políticas.
Não podemos esquecer que essa promoção social foi ocasionada pelos governos que atuaram para estabilizar a economia, gerar empregos e oportunizar o consumo àqueles que anteriormente não dispunham dessas condições. Ironicamente podemos permitir uma analogia com um adágio antigo: “quem cria cobra acaba sendo picado”, ou seja, o governo fomentou uma ascensão social a uma grande parcela da população, porém não se preparou para atende-la em suas novas demandas.
Exemplo deste descontentamento da classe média vindo à tona foi a participação dos “coxinhas” nas manifestações de junho de 2013 - fenômeno amplamente debatido e questionado por militantes de esquerda, que não estavam acostumados a ver pessoas em roupas de marca e carros novos gritando contra o sistema.
Alguns grupos sociais, até mesmo dentro da academia, rotularam os manifestantes da classe média - exemplos do consumismo capitalista- de “coxinhas”, e passaram a questionar a legitimidade de seus gritos contra governos e propostas de emendas constitucionais. Porém os participantes desta discriminada classe se enxergam como inquisidores legítimos de seus direitos, e o são. Desta forma, mesmo que ridicularizados por uma parcela mais radical e esquerdista do processo político social, partidos e candidatos tem por obrigação se aproximar deste grupo e passar a compreendê-lo, sob pena de encontrar nos próximos pleitos 53,8% de eleitores que dirão em suas caras: “vocês não nos representam!”.

Marcos Marinho M. de Queiroz
 Consultor político membro da ABCOP. Professor de graduação e extensão da PUC-GO.

Twitter: @mmarinhomkt